Empréstimo de US$ 20 milhões do IFC gera críticas por ligação com desmatamento da Amazônia e conflitos indígenas
São Paulo, maio de 2026 — 109 organizações da sociedade civil de todo o mundo estão pedindo que a International Finance Corporation (IFC), braço do setor privado do Grupo Banco Mundial, rejeite uma proposta de empréstimo de US$ 20 milhões para a empresa brasileira do agronegócio Grupo Agronorte. A oposição ao empréstimo está sendo coordenada pela campanha Stop Financing Factory Farming, da Sinergia Animal e parceiros. De acordo com o portal de divulgação de projetos da IFC, o financiamento em análise apoiaria a aquisição, pela Agronorte, de uma “unidade de nutrição animal” em Três Corações, Minas Gerais, com capacidade de produção de 520 mil toneladas por ano de ração para animais de estimação, equinos, pecuária e peixes.
A proposta de empréstimo levantou preocupações entre lideranças indígenas, organizações ambientais e grupos da sociedade civil internacional devido a alegações que ligam Gilmar Gonçalves Carvalho, fundador e acionista majoritário da Agronorte, ao desmatamento e a conflitos fundiários próximos ao Território Indígena Apinajé, no Tocantins.
Em uma carta enviada à IFC e assinada por 73 organizações, coletivos, movimentos sociais, pesquisadores e ativistas, a coalizão alertou que o investimento pode contribuir para a destruição ambiental e violações de direitos humanos. “Financiar uma empresa envolvida em conflitos fundiários e acusada de desmatamento ilegal não está alinhado com as políticas da IFC, nem com os objetivos do Acordo de Paris ou do Marco Global da Biodiversidade”, afirma a carta. “Esse projeto produzirá ração animal, que é majoritariamente exportada em vez de apoiar a produção local de alimentos saudáveis”.
Os signatários também alertaram que o empréstimo “financiará a produção de ração animal à base de soja, aumentando a pressão pela expansão do cultivo de soja e, consequentemente, o desmatamento e violações de direitos humanos, como as que afetam o povo Apinajé”.
Segundo a Repórter Brasil, a Associação União das Aldeias Apinajé alega que áreas limítrofes ao Território Indígena Apinajé e regiões sobrepostas a terras reivindicadas pelas comunidades indígenas foram desmatadas pelo fundador da Agronorte. A publicação também informou que Carvalho é réu, juntamente com outros empresários, em uma ação federal movida pelo Ministério Público Federal sobre aproximadamente 2 mil hectares de desmatamento supostamente realizados em 2013 nas proximidades do território indígena.
Lideranças Apinajé denunciaram publicamente a destruição ambiental em áreas reivindicadas pela comunidade indígena e pediram às autoridades que interrompam atividades que, segundo elas, ameaçam seu território, fontes de água e meios de subsistência. Merel van der Mark, gerente do Programa de Bem-Estar Animal e Finanças da Sinergia Animal, afirmou que o financiamento proposto pela IFC contradiz os compromissos do Grupo Banco Mundial com a sustentabilidade, a proteção climática e os direitos indígenas. “Esse investimento corre o risco de intensificar a destruição ambiental e aprofundar os conflitos com comunidades indígenas”, disse ela. “O financiamento público para o desenvolvimento não deve apoiar empresas associadas a alegações de desmatamento e ameaças aos povos indígenas.”
A coalizão também criticou o projeto por reforçar sistemas industriais de produção pecuária dependentes do cultivo de soja em larga escala. Pedimos à IFC que escute as comunidades indígenas, as organizações da sociedade civil e seus próprios padrões ambientais e sociais, e bloqueie esse empréstimo”, acrescentou van der Mark.
Sobre a Sinergia Animal
A Sinergia Animal é uma organização internacional sem fins lucrativos que atua na proteção animal e na promoção de sistemas alimentares mais éticos no Sul Global. A organização é reconhecida como uma das ONGs mais eficazes do mundo pela Animal Charity Evaluators (ACE).

