Cultura

21ª CINEOP CONSOLIDA MEMÓRIA COMO AÇÃO PARA O FUTURO E ALERTA À NECESSIDADE DE SOBERANIA SIMBÓLICA E TECNOLÓGICA NA FORMAÇÃO E PRESERVAÇÃO DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO 

Avançando duas décadas de trajetória na 21ª edição, CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto consolidou a vocação de espaço de formulação de ideias, articulação institucional e construção de políticas públicas para o audiovisual brasileiro nos eixos de preservação, educação e história. Em seis dias, a memória foi pensada como exercício de conhecimento do passado e instrumento de compreensão e desafios  ao futuro. Em um momento histórico de rápidas transformações tecnológicas, mudanças nos modos de circulação das imagens e novas disputas em torno do patrimônio cultural, a mostra reuniu pesquisadores, realizadores, gestores públicos, educadores, arquivistas e estudantes em torno de discussões que buscam pensar a preservação como ponto estratégico na cultura.

“A 21ª CineOP reafirmou que preservar o cinema é preservar a nossa capacidade de lembrar, compreender quem somos e imaginar o futuro. Encerramos esta edição com a convicção de que o patrimônio audiovisual brasileiro precisa permanecer no centro das políticas culturais e da vida da sociedade”, pontua  Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra.

O tema “Memória Viva do Cinema Brasileiro”, expressão que atravessou debates, sessões, encontros e lançamento, propôs associações com direito de acesso, diversidade das narrativas, formação de públicos, democratização de acervos e responsabilidade coletiva pela construção da história do cinema brasileiro. “O papel do cinema, e eu diria de toda a arte, é manter viva a memória”, sintetizou o escritor Frei Betto, ao defender que a preservação da historicidade é condição para que uma sociedade continue produzindo projetos de futuro.

A dimensão política da memória também orientou parte significativa das reflexões do 21º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros. Entre os temas mais urgentes esteve o debate sobre o depósito legal audiovisual, entendido como instrumento fundamental para garantir que a produção contemporânea permaneça acessível a futuras gerações. As discussões evidenciaram que preservar não significa apenas cumprir normas técnicas, mas também enfrentar desigualdades de acesso e representação. Para Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca Capitólio, há uma questão central: “Que memória a gente vai levar para o futuro?”. A preocupação dialogou com a defesa de mecanismos mais abrangentes para incluir produções independentes, periféricas e regionais nas políticas de preservação.

As transformações tecnológicas também ocuparam posição central na programação. Em diferentes mesas, a inteligência artificial, em geral vista como inovação técnica, foi tratada no viés das disputas globais por soberania nacional, infraestrutura pública e autonomia na gestão dos dados culturais. Sheila Mueller, diretora-geral adjunta do Arquivo Nacional, resumiu o desafio ao afirmar que a questão central é saber “se o Estado brasileiro vai participar dessa transição como sujeito ou se será objeto dela”. 

A partir dessa perspectiva, experiências de uso da IA para transcrição de manuscritos, descrição automatizada de acervos, ampliação do acesso aos documentos e fortalecimento de bases públicas de conhecimento apontaram possibilidades concretas para aproximar inovação tecnológica e preservação da memória.

Uma compreensão ampliada da preservação apareceu ainda nas discussões sobre patrimônio cultural. Marcelo Azevedo Maffra, promotor do Ministério Público de Minas Gerais e coordenador estadual das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural, defendeu que memória, patrimônio e identidade constituem direitos fundamentais construídos historicamente e cuja proteção depende da atuação conjunta entre Estado e sociedade. Ao apresentar experiências do MPMG, entre elas o Funemp, que ajuda a viabilizar a CineOP, Maffra reforçou que o patrimônio funciona como um antídoto contra o imediatismo contemporâneo e condição para que as próximas gerações recebam uma sociedade mais consciente de sua própria história.

As principais reflexões do 21º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros foram consolidadas na Carta de Ouro Preto, documento que serve anualmente de agenda estratégica do setor. Em diálogo direto com as discussões da CineOP, a carta em 2026 destaca avanços recentes, como a criação do curso de Preservador Audiovisual pelo CTAv e IFRJ e a aprovação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Preservação e Restauração do Audiovisual (INCT PreRes), ao mesmo tempo em que defende a ampliação da formação especializada, a regulamentação profissional e a construção de uma rede descentralizada de pesquisa e preservação distribuída pelas diferentes regiões brasileiras.

O documento transforma em proposições práticas temas recorrentes dos debates da mostra, como o fortalecimento do depósito legal, a necessidade de concursos públicos para consolidar políticas permanentes de preservação, a construção de infraestrutura pública nacional para armazenamento de acervos digitais e o estabelecimento de parâmetros éticos para o uso da inteligência artificial. Ao afirmar que “nunca se produziu tanto audiovisual, mas sua permanência no tempo vem se tornando cada vez mais incerta”, o texto defende que o arquivo audiovisual seja compreendido como “matéria viva de soberania nacional, identidade e invenção”. 

Em uma moção de apoio específica, os participantes ainda reivindicam ações urgentes para a preservação do acervo do projeto Vídeo nas Aldeias, reconhecido como patrimônio essencial para a memória dos povos originários e para uma história do audiovisual capaz de superar apagamentos históricos e ampliar a diversidade das narrativas preservadas.

No quesito educação, ao longo do Fórum da Rede Kino e dos encontros dedicados ao tema, professores, pesquisadores e realizadores refletiram sobre práticas pedagógicas capazes de aproximar crianças, jovens e educadores da linguagem audiovisual em um contexto marcado pela presença crescente das plataformas digitais, da inteligência artificial e das novas formas de produção de imagens. Os encontros trataram especialmente de uma formação crítica capaz de compreender o audiovisual como linguagem, patrimônio cultural e instrumento de cidadania.

As discussões da Temática Educação encontraram síntese na Carta de Ouro Preto do 18º Fórum da Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual – Rede Kino, que reafirma o cinema como “experiência, direito e território de invenção” e defende sua presença estruturante nos processos de formação. O documento reforça que preservar imagens também significa preservar memórias, sensibilidades e identidades e propõe articulação entre políticas públicas, formação docente, fortalecimento de acervos, pesquisa e circulação de obras produzidas em contextos educativos. A carta aproxima os debates sobre cinema e educação das discussões sobre soberania tecnológica e defende o desenvolvimento de infraestruturas digitais públicas e tecnologias nacionais voltadas à produção do conhecimento.

Entre os encaminhamentos concretos, a Rede Kino considera “inadiável” a regulamentação da Lei nº 13.006/2014, a implementação do Programa Nacional de Cinema nas Escolas e a inclusão explícita do cinema como componente curricular na futura reformulação da Base Nacional Comum Curricular. O documento reivindica ainda a ampliação da formação inicial e continuada de professores, a criação de novas licenciaturas em cinema e audiovisual e alerta que a ausência do cinema como linguagem específica na BNCC ‘não é apenas curricular, mas simbólica e política”. A carta manifesta preocupação com a crescente plataformização da educação e defende que o futuro do ensino público seja sustentado por tecnologias locais e autônomas, sem dependência de ferramentas criadas por grandes conglomerados. 

Na Temática Histórica, filmes restaurados, obras contemporâneas e debates evidenciaram que preservar também significa revisar narrativas, ampliar perspectivas e incorporar experiências historicamente invisibilizadas. Ao longo da programação, o cinema foi apresentado como espaço de registro de conflitos, disputas de representação e processos históricos que permanecem em permanente atualização por meio das imagens. O recorte do pioneirismo de mulheres diretoras ao longo da história do cinema no país deu oportunidade para se colocar em perspectiva trajetórias distintas e responsivas a seus contextos de produção.

No reforço da CineOP de valorizar seus pilares, aconteceu o lançamento do livro Memória Viva do Cinema Brasileiro, publicação comemorativa dos 20 anos da CineOP, com textos de pesquisadores, curadores, professores, preservadores e profissionais do audiovisual em torno de reflexões sobre história, preservação e educação audiovisual. Organizado como uma obra de caráter acadêmico e curatorial, o volume registra parte das discussões desenvolvidas pelo evento ao longo de duas décadas.

Respostas para os desafios contemporâneos da memória audiovisual dependem necessariamente da construção coletiva. Ao longo dos encontros na CineOP, reforçou-se que tratar de tantos desafios exige a união de segmentos do setor para os desafios impostos por conjunturas a nível global. A Mostra tem  posição estratégica nesses processos e estará sempre representando esse momento de encontros e desenvolvimento de políticas com intuito de salvaguardar o patrimônio audiovisual como política de soberania sob todas as vertentes.

SOBRE A CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO

O EVENTO DA PRESERVAÇÃO, HISTÓRIA E EDUCAÇÃO 

A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto é o único evento do Brasil dedicado ao cinema como patrimônio e, há 21 anos, ocupa lugar de destaque no calendário audiovisual brasileiro ao articular preservação, história e educação. 

Realizada anualmente na cidade histórica de Ouro Preto (MG), promove exibições de filmes, debates, homenagens, oficinas, atividades formativas e encontros estratégicos que reúnem realizadores, pesquisadores, educadores, estudantes, profissionais de arquivos e o público em geral. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como espaço de referência nacional para a reflexão sobre memória audiovisual, formação de público e políticas voltadas ao setor.

Toda a programação é gratuita. Mais informações www.cineop.com.br

SERVIÇO

21ª CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO | 25 A 30 DE JUNHO DE 2026

Praça Tiradentes | Centro de Artes e Convenções da Ufop | Cine-Museu – Anexo do Museu da Inconfidência

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

Onde tem patrocínio, tem Governo do Brasil

Patrocínio Master: Petrobras

Patrocínio: Vale, Itaú, Emgea e Caixa 

Parceria Cultural: Ministério Público de Minas Gerais, Prefeitura de Belo Horizonte através da Secretaria Municipal de Cultura, Universidade Federal de Ouro Preto, Prefeitura de Ouro Preto 

Apoio: Canal Brasil, Casa da Mostra, CTAV, Café 3 Corações

Correalização: Instituto Universo Cultural

Idealização e Realização: Universo Produção

MINISTÉRIO DA CULTURA – GOVERNO DO BRASIL | DO LADO DO POVO BRASILEIRO 

link para fotos

Encontro de Arquivos - Apresentação de Cases de Restauro

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