Saúde

Pesquisa brasileira utiliza células-tronco para tratar complicação grave após transplante de medula óssea

PUCPR

Estudo desenvolvido pela PUCPR para o tratamento da Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH) crônica acaba de ser aprovado pela Anvisa e terá início em setembro de 2026

Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) conduzem um ensaio clínico inédito no Brasil, com potencial para transformar o tratamento da Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH) crônica, uma complicação grave que pode surgir após transplantes de medula óssea. O estudo, liderado pelo Centro de Tecnologia Celular (CTC) da PUCPR, que tem como médico responsável técnico o Dr. Paulo Brofman, utiliza células-tronco mesenquimais (CTM) derivadas da medula óssea e acaba de receber aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Na DECH crônica, as células do doador passam a atacar o organismo do receptor, provocando complicações graves, com altas taxas de morbidade e mortalidade. Uma parcela significativa dos pacientes desenvolve resistência às terapias de primeira linha e o acesso às terapias de segunda linha ainda é restrito no Sistema Único de Saúde (SUS). “Esses pacientes frequentemente necessitam de internações prolongadas e de tratamentos intensivos, o que sobrecarrega o sistema de saúde e compromete significativamente a qualidade de vida desses pacientes”, explica Carmen Kuniyoshi Rebelatto, coordenadora do projeto e responsável técnica do Centro de Tecnologia Celular da PUCPR (CTC-PUCPR). 

Como alternativa terapêutica para esses casos, os pesquisadores desenvolveram o MesenCell, um produto biológico composto por células vivas com propriedades imunomoduladoras. Desenvolvido pela equipe do CTC-PUCPR, o MesenCell é o primeiro Produto de Terapia Avançada (PTA) do país, baseado em células-tronco mesenquimais, voltado ao tratamento da DECH crônica, com potencial de aplicação futura em outras doenças inflamatórias.

O protocolo prevê a administração de três doses do MesenCell, aplicadas em intervalos semanais, com acompanhamento clínico dos pacientes por até 12 meses após a primeira infusão. O ensaio clínico envolverá 20 pacientes com DECH crônica resistentes a corticosteroides, atendidos em três centros de referência: o Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), o Hospital Erasto Gaertner e o Hospital Nossa Senhora das Graças. O início do tratamento está previsto para setembro de 2026.

Resultados promissores 

O principal objetivo do estudo é avaliar a segurança e a tolerabilidade da terapia. A equipe do CTC-PUCPR já acumula experiência com um produto semelhante, também baseado em CTM, que apresentou resultados promissores: taxa de resposta global de 80%, incluindo 50% de remissão completa. Os dados apontaram, ainda, resposta completa em 100% das manifestações cutâneas, 75% dos casos com comprometimento gastrointestinal e 50% das manifestações na cavidade oral. Além disso, 60% dos pacientes conseguiram reduzir ou suspender o uso de imunossupressores, enquanto os casos graves de esclerodermia associada à DECH apresentaram recuperação funcional significativa.

A expectativa é que o MesenCell contribua para a redução da inflamação sistêmica, a diminuição da incidência de infecções e a melhora significativa da qualidade de vida. Os impactos potenciais, porém, vão além do âmbito clínico: ao reduzir a necessidade de internações prolongadas e de tratamentos intensivos, a terapia também favorece a sustentabilidade do sistema hospitalar e alivia a sobrecarga do Sistema Único de Saúde (SUS). “Esta iniciativa busca transformar uma inovação tecnológica em uma alternativa terapêutica concreta para uma condição de manejo clínico complexo”, destaca a pesquisadora da PUCPR. 

A pesquisa recebeu financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), no valor de R$ 5.623.522,00, destinado ao desenvolvimento do estudo clínico em humanos, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com aporte de R$ 1.500.970,00, para a realização dos ensaios em animais, etapa necessária antes do início dos testes em humanos. Este é um estudo multicêntrico, que está sendo desenvolvido pela equipe do CTC-PUCPR, sob coordenação da Dra Carmen Kuniyoshi Rebelatto, em colaboração com o Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Hospital Nossa Senhora das Graças, sob responsabilidade da Dra. Vaneuza Araújo Moreira Funke, além do Hospital Erasto Gaertner, com participação do Dr. João de Holanda Farias. 

Centro de Tecnologia Celular PUCPR
Centro de Tecnologia Celular PUCPR
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