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A digitalização do saneamento: do controle manual à inteligência de dados

Engº Francisco Carlos Oliver*

Com bastante otimismo a digitalização do saneamento no Brasil está progredindo de forma acelerada. O setor está se distanciando dos controles manuais e relatórios fragmentados e vai em direção a plataformas unificadas de dados e inteligência artificial. As mais importantes são o sistema federal Sinisa e soluções privadas como Balance e InfoSaneamento. A mudança visa aumentar a eficiência, a transparência e a capacidade preditiva visando atingir os objetivos descritos no Marco Legal do Saneamento e também a exigência da redução de perdas de água, que ainda apresentam níveis críticos em diversas regiões do território nacional.

Apesar de todos os avanços em digitalização do saneamento, o Brasil atualmente ainda está num patamar global de ‘intermediário-baixo’, segundo especialistas internacionais. Foi a partir das últimas duas décadas que o setor deu início à digitalização dos processos e do começo da mudança do ‘saneamento físico’ para o ‘saneamento inteligente’. Os principais benefícios são muito relevantes para toda a população. Sustentadas por dados num nível de confiabilidade melhor, haverá uma eficiência operacional melhor com decisões mais rápidas. O uso de IA vai antecipar falhas em redes de água e esgoto.

Alguns analistas e estudiosos do saneamento básico consideram que neste momento o Brasil já saiu de um modelo manual e fragmentado para um cenário em que as decisões estão cada vez mais automatizadas, e a eficiência passou a depender diretamente da inteligência digital com os dados se transformando em ativos estratégicos.

Tem havido a instalação de telemetria e sensores em redes, e os sistemas nacionais de informação como o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento estão agrupando tudo o que for importante. As plataformas públicas de dados também estão possibilitando muito mais transparência. A elevação da eficiência proporciona o desligamento remoto de bombas e fazer o ajuste de pressão em tempo real, assim são evitados rompimentos de tubulações em horários de baixo consumo.

Cada nova plataforma implementada teve um propósito bem delineado. Enquanto o Sinisa garante padronização nacional, as soluções privadas como Balance e InfoSaneamento trouxeram a inovação preditiva – que expõe antecipadamente o que poderá ocorrer num momento futuro – e também a participativa – aquele procedimento de desenvolver novas ideias, soluções e políticas envolvendo ativamente as pessoas afetadas por elas.

O setor está digitalizando também processos com sistemas supervisórios (Scada – Supervisory Control and Data Acquisition) que são soluções que monitoram, controlam e coletam dados de processos industriais em tempo real. A partir da conectividade, sensores de nível, pressão e qualidade da água enviam dados via rádio ou celular para Centrais de Controle Operacional (CCO).

A evolução da previsibilidade com o uso de IA antecipa falhas nas redes de água e esgoto, inclusive aqueles vazamentos ‘não visíveis’. A expectativa é que os sensores, juntamente com a análise preditiva, vão reduzir perdas de água em até 30%. Os canais digitais permitirão ainda que o usuário comunique os problemas em tempo real, incentivando mais a participação social da comunidade. Ao elevar a transparência e governança haverá maior controle regulatório e alinhamento com metas de ESG estabelecidas.

Nas grandes capitais as operadoras privadas operam com IA, mas nos municípios pequenos ainda se percebe a luta contra a falta de água e até da automação básica. Em outras palavras: Há forte contraste entre as grandes concessionárias que são altamente digitalizadas e os pequenos municípios que ainda são analógicos. Vários municípios ainda dependem de planilhas e relatórios manuais, dificultando a integração de dados. Por causa da infraestrutura antiga os sistemas sobrecarregados podem restringir a eficácia das soluções digitais.

Só efetivamente haverá avanço, portanto, se o Poder Público tiver capacidade de amplificar essas soluções para todo o território, e alcançar principalmente aquelas cidades menores. O êxito da mudança dependerá da capacidade de integrar dados locais, treinar equipes e garantir que os avanços cheguem a todas as regiões do País.

Existe, porém, outros desafios no panorama brasileiro do ‘saneamento digital’. Com a digitalização desse segmento aumentará a vulnerabilidade a ataques cibernéticos, o que exigirá investimentos significativos em segurança de dados. Outra barreira é a da capacitação, porque a transição obrigará que o ‘operador de chave’ se transforme num ‘analista de dados’, o que determina uma significativa requalificação da mão de obra.

O mercado entende que a transformação digital no setor de saneamento brasileiro pode ser vista como uma trajetória dividida em três etapas principais: controle manual, automação operacional e inteligência orientada por dados. Todos teremos que fazer ainda progressos significativos para enfrentar possivelmente o maior obstáculo desse universo, as desigualdades tecnológicas que existem ao redor do País.

*Engº Francisco Carlos Oliver é diretor técnico industrial da Fluid Feeder, empresa especializada em soluções para tratamento de água e efluentes.

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Sobre a Fluid Feeder

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