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Crescimento do investimento brasileiro no exterior expõe necessidade de estrutura financeira, regulatória e governança para sustentar essas operações

Crescimento do investimento brasileiro no exterior expõe necessidade de estrutura financeira, regulatória e governança para sustentar essas operações

*Por Rodrigo Manoel Maia

A internacionalização das empresas brasileiras ganhou escala e sofisticação. As manchetes celebram a chegada de companhias nacionais aos Estados Unidos, a Portugal e a outros mercados desenvolvidos, mas raramente revelam o componente que realmente sustenta essa expansão. A base não está na foto de inauguração, e sim na engenharia silenciosa de finanças internacionais, gestão de risco e conformidade regulatória. Quando essas estruturas falham, a expansão deixa de ser oportunidade e passa a representar um passivo capaz de comprometer a operação no Brasil.

Os números mostram que esse movimento não é episódico. A posição de investimento direto brasileiro no exterior alcançou mais de 500 bilhões de dólares em 2024, maior nível da série do Banco Central e equivalente a mais de metade dos ativos externos nacionais. O dado comprova que o Brasil deixou de atuar apenas como receptor de capital e passou a assumir papel relevante como emissor estratégico de investimento corporativo.

O ambiente global, porém, tornou-se mais desafiador. O World Investment Report 2025 da ONU registrou queda de 11% nos fluxos internacionais de investimento em 2024, o segundo ano consecutivo de retração, cenário influenciado pela elevação dos juros globais, pela redução da liquidez e por tensões geopolíticas persistentes. Quando o capital fica mais seletivo, governança se converte em critério de decisão, e não mais em etapa burocrática. É nesse ponto que a internacionalização se encontra com o compliance.

A prática revela um padrão recorrente. Muitas empresas buscam assessoria quando contratos já foram assinados e estruturas societárias estão prontas, mas sem o alicerce regulatório necessário para sustentar a presença internacional. O erro mais comum é tratar a operação externa como extensão natural do CNPJ brasileiro. Cada jurisdição exige comprovação de substância econômica, padrões fiscais específicos e narrativa documental consistente. Sem isso, a filial nasce vulnerável e exposta a riscos que podem se materializar em sanções, litígios ou custos tributários inesperados.

A agenda de integridade também passou a fazer parte do processo de internacionalização. As diretrizes europeias sobre cadeias de fornecedores e diligência ampliada mostram que competitividade não depende apenas de produto, mas de coerência entre discurso institucional e práticas internas. Empresas com governança consolidada se adaptam rapidamente. As demais precisam rever fluxos inteiros de gestão.

A internacionalização responsável começa com perguntas estratégicas. A estrutura societária foi escolhida por racionalidade operacional ou por urgência? Os fluxos financeiros estão documentados de forma que resistam ao escrutínio de reguladores estrangeiros? O risco de sanção foi mapeado e integrado ao planejamento financeiro? Quando essas respostas não aparecem, a expansão não é uma estratégia, e sim uma aposta.

Esse processo ocorre ao mesmo tempo em que cresce o número de empresas brasileiras de porte médio avançando para mercados desenvolvidos. São operações mais enxutas, mas fundamentais para a diversificação e para o equilíbrio financeiro dos grupos que representam. Para essas companhias, errar na estrutura pode custar mais do que suspender o plano.

Mesmo em um contexto internacional mais rígido, o fluxo de capital para o Brasil permanece expressivo. De janeiro a outubro de 2025, o país recebeu 74,3 bilhões de dólares em investimento direto estrangeiro, superando o total do ano anterior, segundo dados oficiais. O movimento simultâneo de forte saída e entrada de capital mostra que o Brasil está inserido em circuitos globais que demandam padrões mais elevados de governança e transparência. Isso vale tanto para empresas brasileiras que buscam novos mercados quanto para grupos estrangeiros que iniciam operações aqui.

Finanças internacionais, governança e compliance não aparecem nas fotos de inauguração, mas determinam se a placa da filial permanecerá na porta ao longo dos anos.

Sobre: Rodrigo Manoel Maia é executivo de finanças e estratégia com mais de vinte anos de atuação. CFO especialista em mercado Publishing da Dot Lib Information Group, holding internacional com presença na América Latina, Portugal, Espanha e Estados Unidos, é especialista em expansão internacional, governança corporativa e planejamento estratégico.

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